Num filme são obse
ssivamente material/eternizados—depois de uma longa/louca corrida pela rua—os últimos gestos de uma mulher que se refugia em seu quarto, talvez esperando a morte... Fecha-se no quarto desadorno (como em si mesma), buscando encontrar a solidão total/absoluta. Manda embora, enxotando-os, um pequeno cão e um gato, vagabundos, que modorravam/repousavam lá-dentro.
Cerra muito bem a cortina da janela, isola o sol. Pouco/pálido, já, naquele crepúsculo. Desconecta/arranca o telefone.
Cobre com a blusa de que se desfaz do corpo o poleiro de um papagaio atônito, que está somando horas num canto pouco confortável, por sobre a pia. Com a saia, faz desaparecer o aquário onde boqueja um casal de peixes/vermelhos/ dourados/brancos. NUA.
Ainda, como cobrindo um santo para enfrentar a quaresma, o espelho, — (por quanto tempo único interlocutor/sério/amigo/ representação-crítico/ ôlho-que-vê/ quase-perfeitos: não fossem certas recaídas na autocomiseração, quanto tempo aqui, nós, juntos-sós?) —, espelho que, desta vez, só poderia, tão sinceramente, refletir mesmo sua própria imagem, desolada. Verdadeira.
Por fim, superada a angústia que lhe causavam todos os olhos que podiam enxergá-la, senta-se, bate-pó, "te levo, te trago, te faço, brancas linhas, retas, minhas", queima-fumo, alinha uma quantidade de todas-as-cores/pílulas, abre a gaveta. Tira uma garrafa de uísque-bebe-no-gargalo, sussulta; tira também um envelope com algumas fotografias — as recordações, os momentos significados/fixados na memória — e, depois de tê-las observado atentamente umaporuma, rasga-as. Todas. Destruída, assim, cada/qualquer referência com o mundo onde não vive e sobreviveu apenas, inerte, acredita — em vão — ter-se finalmente libertada, liberada de tudo. Em vão. Porque, levantando o olhar, na parede branca esquálida encontra sempre, ali, inevitável/imperecível, a imagem-sombra de si.
No entanto, vai-se acordando placidamente noutra realidade, um diferente lugar: quarto, a mortrar claro/ clara/mente que é diversa. Que nada tem a partilhar com a mulher do sono. Sonho? E, normal/mecânica, levanta-se, chama o filho, caminha pela casa banheiro cozinha prepara-se. Sai.
Invade a quietude preguiçosa de um bar (morno) no ante-fim da tarde. Derrubando-mesas-trôpega/ausente/lúcida. Rebufa-refuga. Prossegue? Atravessa gentes. Projeta/pensa/confunde irrealizações emoções; espera (cega) do que não-há-de-vir. Começa enfurecelerando o passo logo, anda mais-depressa-mais; quase corre: Corre; e, depois de uma louca/longa corrida pela rua se fecha em seu quarto talvez esperando a morte...
(A Samuel Beckett, In Memoriam, e a Dor-Ingloriam)
in Folhetim
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