SEQ. 2— Embora não fosse este o tipo de mensagem que Cláudia pudesse mandar, CLAUDIA (quase) não se espantou muito. Saber/admitia que, desde-uns-dias, alguma coisa estava acontecendo, fora-controle. Difícil detectar, ver/ouvir/tocar/cheirar, que se PERCEBE apenas: Inútil negar, também, o rondar latente do não-dito-mas-sabido: não demora tanto, a crise alcançaria seu mais agudo cume, o mais delicado e, quem sabe?, decisivo. E CLAUDIA que, todavia, chegara mesmo a confiar, se aborrece/entedia.
SEQ. 3 — Cláudia, afinal, apesar de recém-criança, tudo sabia da pequenez do mundo — a impureza do homem e a, dela, intocabilidade, mensal — e prova/profunda/pena ao interiorizar total impossibilidade/e/ou incapacidade!) de o generumano HUMANIZAR-se, aumentar/crescer, sempre, tentativa/viver. Por que? Só viver lhe bastaria, querida Cláudia, um NÃO ao compromisso, empenhos há-penas. E o fato de ser ela capaz de amar/assumir, sem-culpas, a simesma, lhe dava uma solidez que ne-nhum-nada poderia atacar/contrariar, tão-perdida na certeza do seu destino. Não (lhe) bastariam mais, agora, prazeres menores, os acertos e arranjos, falsidade-da-comodidade.
SEQ. 4 — CLAUDIA encontrou-se com Cláudia pela primeira vez n'um café e atração-contato/simples-imediato. In-quietante. Logo descobrem que não têm somente nome em comum. É visível, em-patia. Cláudia, dezesseis anos, jamais se questionará diante de sua diversidade. Era assim, toda-vida foi, pronto! Fácil explicar-se com alguém que realmente está com você.
SEQ. 5 — Talvez não haja muito tempo, eu-sou-MULHER, cansei-me de deplorar, de "desculpes-me", perdões. Sou velha para mimesma — soma/sobra de tudo o que fui e não — exijo respeito. Pelo amor, basta. Cláudia erra por si, se quiser. Eu vou tentar até que possa. Assim, CLAUDIA caminha pela sala semi-escura, mortiça na luz fugidia da tarde/desmaio, versos-de-adeus entre mãos pálidas.
SEQ. 6— CLAUDIA revê seu marido, ela fica com o menino, é claro. A discussão nem dura muito. Ele também, n'outras, não aparentava necessidade de reagir, alheia toda a vontade de justificar-se, repetir-se, aos-olhos-de-quem pouco tinha procurado, no fundo, entender. CLAUDIA sabia, calava-se. Ele, silêncio.
SEQ. 7 — Mudar/casa. Matrícula novescola. Bares. Achar novos amigos, velhos-de-problemas, arcaicos. Frio. Outra vida. Outra CLAUDIA. Amores? Apático esperar, (ancestral), não-interesse, até quando? Re/nascer des/agregar des/regrar — embriaguez (filho) drogar-torpor/dissipar — dis/pensar. Longas noites: sonhos vãos.
SEQ. 8— Fatal!... Estamos aqui, assim, há seis meses — não conseguimos evitar o-que-vai pelos outros, todos. Eisaí: da mesma forma, como-sempre, mergulhadas no trivial/mediano. Já não estamos juntas, já não SOMOS não, nos transformamos — dois pólos, compreendemos? Opostos, distantes, discretamente repetitivos. Cláudia (porém) não condena aquele certo maternalismo da outra e deixava-se levar — ah, CLAUDIA! — por uma letargia/preguiça, sempre premiada. Tempos de desequilíbrio e de amor.
SEQ. 9— CLAUDIA está na cama ao lado de Cláudia, envolvida n'uma (quase) radiante segurança de ser feliz, sensação/re-descoberta-velhanova, depois do AMAR. Eram momentos doces, mornos. Fragmentos/fotogramas a-temporais em que Cláudia sempre repete sua natural-natureza e se procura/afirma, uma ânsia-juvenil, uma grandeza-madura de querer só-sentir os sentimentos tantoquanto perfeitos, daqueles que são pura-emoção e determinam, em causas, mudanças-radicais-na-vida-da-gen-te. Qualidade/intensidade maior. Encontro, O-real, tornado único. "Crescer libertar gozar". CLAUDIA sabia, calava-se. Cantava Caetano. Cláudia assegurava ser cons/ciente de todo desejo projetado no seu in/cons/ciente. Isso é bom. No entanto, saber ANTES é quase-um-sofrer: às vezes chorava.
SEQ. 10 — Tudo acontecia neste espaço, intimidade/refúgio. Sacrário, signo/sinal. No início era nossa Depois, uma tarde — estava próximo o crepúsculo — ausente qualquer indicação anterior que avisasse, uma sombra uma dúvida, algo se rompia sem visível e clara/lógica explicação. Um raio fugaz, rápido fulmíneo, que deixa atrás de si assustadora incorruptível verdade — daliendiante, nunca-mais a mesma coisa. Troca de olhar-que-se entende, ninguém precisa falar.
SEQ. 11 — CLAUDIA e Cláudia gostariam, sinceramente, que o caminho fosse UM diferente. Até lutaram para desviar o inexorável destino dele-e-delas, (nem-que-se para retardar de um segundo), mesmo con/sabendo o inevitável. E se apartam tristes. Sequer buscam esconder o que sobrevive de eterno no sentimento-que-não-muda. Contentes com ele, parece. Desoladas por não realizá-lo.
SEQ. 12 — E se apartam, profundo abraço. Cláudia vai sozinha pela rua/névoa/náusea, memória, amargo sabor das coisas deixadas: mesmassim, indagação silenciosa se abriga, n'um-repente, dentro dos olhos grandes — ela SABE que é separação. S'irriquieta. Caminha. CLAUDIA dá passos em sentido contrário, sim, não se odeiam. (Um-acabar-que-nâo-termina). Pára/anda/pára. Vira/olha/vê: Cláudia está voltada para ela, assistiu a indecisão, sorri. Tornam-se as duas, retomam calmamente sua resolução. E seguem. CLAUDIA também está sorrindo...
FADE (and) OUT
Jirges Ristum é cineasta. Trabalhou 14 anos na Itália com Rosselini, Antonioni, Bertolucci e Glauber Rocha. De volta ao Brasil, foi assistente de direção em "Rio Babilônia", de Neville de Almeida. Está lançando um livro de poesias, "Guardanapos Escolhidos".
in FOLHETIM, 28 de novembro de 1982
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