Quando meu jovem amigo Jirges — jovem, porque da geração dos meus filhos, a generosa e sofrida geração-dos-anos-sessenta — me pediu um prefácio para os seus Guardanapos, fiquei comovida. Comovida e perplexa: o que dizer sobre um livro que, com licença de Maiacovsky, é todo-coração? (Bem, quase todo. Porque ele é também muito reflexão). Pois não se trata de um livro pensado e elaborado diante de uma escrivaninha, ele não é uma obra literária formal, nem mesmo intencional. É coisa bem diferente, algo que não foi programado, mas que aconteceu meio ao acaso, brotou da cabeça e da caneta deste cineasta (mas poeta, poeta) Jirges, brasileiro tantos anos exilado; tantos anos nômade, se badalando pelo mundo, morando ou passando, assistindo ou participando, vivendo e aprendendo e batalhando a vida — e esperando. Esperando pelos acontecimentos, pelas oportunidades, pelas cartas, esperando pelo retorno e last but not least (para ser um pouco poliglota como ele mesmo) — esperando pela amada, em longas horas de solidão — (as amadas são muitas vezes retardatárias, "a/mais terrível/presença tua:/tua ausência") — em tantas mesinhas de tantos botecos de tantas cidades, Roma, Veneza, Paris, São Paulo, New York...
O que se passa, o que passa pela cabeça de um alguém, lúcido, sensível, temperamental (e apaixonado), que espera solitário diante de uma (e mais uma e outra) caneca de cerveja, de uma cachacinha, um copo de vinho ou mesmo um refrigerante? O que acontece quando esse fluir do pensamento — sóbrio, ébrio, nítido, difuso — escorre da caneta para o guardanapo de papel que se oferece, folha em branco, fala amigo?
Pingam sobre o guardanapo-confidente rabiscos e garatujas do fluxo do inconsciente, signos e símbolos, sensações e sentimentos em forma de graffitti, gritos e sussurros disfarçados em hai-kais, plaisir d'amour e chagrin d'amour em gestos gráficos, reflexões filosóficas em poemetos (poe-meus, diria o Millôr), agri-doces, irônicos, ansiosos, raivosos, entediados, e também tranquilos, risonhos, bem-humorados. Toda aquela gama, a escala cromática de emoções que — velhas-conhecidas, mas sempre novas na hora em que (nos) acontecem — pousam em expressões espontâneas sobre o disponível guardanapo e lá ficam, registro informal e distraído de um estado de espírito, memória vagabunda de um momento fugaz, uma impressão, uma sensação, uma percepção.
Foi bom que o Jirges, andarilho e poeta, guard(anap) ou os seus peregrinos insights e se deixou convencer a publicar esta breve seleção dentre as centenas daqueles reveladores quadradinhos de papel. Ainda que à custa de se expor — ele discreto-encabulado — e de se fazer vulnerável, ele sensível-reservado. Porque, mesmo se "todas as cartas de amor" (as dos outros) "são ridículas", o sorriso com que o leitor porventura acolherá esses pequenos poemas que ora alçam vôo, ora pousam no chão, será o sorriso da identificação e da cumplicidade.
Tatiana Belinky
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