"Ao lado do teatro, e da literatura, o maior inimigo do cinema é o real, o realismo" — diz Jirges.
E como todo contador de histórias, que também possui seu lado de aventureiro, Jirges Ristum tem as suas epopéias. Ao sair do Brasil, há quase quatorze anos, largando a profissão de jornalista para elaborar uma tese sobre Antonio Gramsci, em direção a Roma, ele jamais imaginara que sua vida estivesse tomando rumos tão diferentes. E agora, depois de retornar pelas mãos de Neville d' Almeida, de quem foi assistente de direção em "Rio Babilônia", os planos vão se alterando com as horas. Se prepara para iniciar as filmagens de um curta-metragem tendo como estrela Norma Bengell, que leva um simples nome: "Ela". Aguarda, também, a publicação de um livro de poesias bastante inusitado: "Guardanapos Escolhidos". São poesias escritas em guardanapos de bares enquanto o incauto romântico — no caso, Jirges — aguardava, por horas, a sua musa.
A literatura e o cinema sempre estiveram mais ou menos enroscados nas mãos de Ristum. Como ele mesmo confessa, possui certas veleidades literárias. E não há muito tempo, escrevendo roteiros ou argumentos para cinema, cunhou a expressão "cine-conto". Que também é um estilo de narrativa. Pegando do cinema a agilidade da descrição, os cortes bruscos, até a simultaneidade, Jirges jamais cria um argumento para um filme sem acrescentar os elementos poéticos, literários. O "Folhetim" do próximo domingo publicará "Acerta-a-Mosca", um texto que é também um argumento para cinema.
"Meus argumentos, na maioria das vezes, são feitos sem diálogos" — diz Jirges. "Em "Ela", por exemplo, que vou fazer com Norma Bengell, criei uma situação emblemática sobre um tema que gosto: a mulher. Porque tenho um interesse acentuado pela problemática da mulher em geral e em particular, também "
Os cine-contos criados por Jirges obedecem uma composição, não só técnica como estilística. Ele busca na linguagem uma forma de visualizar, pelas palavras, as cenas que serão captadas mais tarde pelas câmeras. E, ao descrever os movimentos dos personagens, ao puxar os olhos do leitor, planifica a ação baseado na técnica cinematográfica. Assim, quando a atenção deve estar somente sobre certa parte do corpo, por exemplo, trata de colocar no texto recursos narrativos que não mostrem nenhum outro detalhe.
"Os textos têm cortes, possuem mudanças rápidas na ação — vai contando Jirges. Existe também uma certa respiração, as pausas, as rupturas. Porque eu quero que o texto também sobreviva como obra literária, e não apenas como argumento para um filme. A fita existe apenas na minha cabeça. Mas pode existir como texto de criação."
Ao escrever um cine-conto, ou ao pensar num argumento para cinema, Jirges Ristum jamais abandona uma mania. Ele é incapaz de criar uma história na qual a mulher não surja como catalizadora da cena dramática. Seus textos, suas idéias, sempre trazem a presença feminina desestruturando a narrativa, provocando modificações, enfim, polarizando a ação da narrativa.
"Como sou pós-freudiano e pós-marxista e antiplatônico e anti-aristotélico — conta Jirges — procuro imaginar as histórias sem censura. A mulher é muito forte no meu trabalho; não consigo criar qualquer história em que ela não tenha um papel fundamental, decisivo. Procuro enxergar o mundo pela ótica feminina. Por quê? Ela possui uma maneira de exprimir o mundo que o homem não consegue expressar — isso em toda a humanidade." E foi a presença feminina que novamente provocou os guardanapos poéticos. Segundo Jirges, eles nasceram da espera. De esperar a mulher amada. Enquanto ela não vinha, mergulhado em variados humores, ele escrevia poemas, pensamentos, pequenos hai-kais, revelações que surgiam na mesa do bar. Jamais pensou em publicá-los até que os amigos insistiram na qualidade do material. Nasceu assim os "Guardanapos Escolhidos".
"O livro deve sair em breve — conta Jirges. Serão quase 130 hai-kais, poemetos. É uma coletânea com os temas falando de amor, alegria, muito tédio, sempre uma situação específica da minha vida. Como são saques de momento, são reflexões, trazem uma avaliação da realidade.
Com Antonioni, muitos projetos
A experiência no cinema italiano foi bastante rica. Começou quase sem querer: Jirges trabalhava na RAI e foi cobrir a chegada dos quarenta brasileiros permutados com o embaixador alemão. Não se limitou em escrever o texto, mas quis filmar as cenas, mostrando a situação dos exilados. Pronto o material, batizado de "Passaporte Diplomático", sua exibição provocou uma retaliação por parte do governo brasileiro.
"Como eu filmei uma menina baleada na perna — conta Jirges — houve repercussão da matéria. O resultado foi que fiquei sem passaporte para voltar. Tive de ir-me virando pela Europa."
E se virou bem, o rapaz. Tratou de abandonar o jornalismo, cair no cinema. Pensou que seria documentarista, especialmente depois de assistir ao trabalho de Antonioni sobre a China. Mas teve um problema, de cara:
"Eu não podia ser documentarista, pois era ficcionista em todas as situações. Qualquer coisa que criasse saía ficcional."
Em pouco tempo começou sua carreira como assistente de direção ao lado de Antonioni ("Mistério de Oberwald"), Bertolucci ("La Luna"), Glauber Rocha '( "Claro"), Rosselini ("Ano Hum"), além de muitos projetos ao lado de Antonioni, que, por vários motivos, não deram certo.
"Com Antonioni fiz muitos projetos, viajamos muito, numa convivência diária por vários anos. Se os filmes não saíram, nem importa. Seria uma excrescência."
Mas foi ao lado de Glauber Rocha, que o chamava de "o maior cineasta não revelado", que Jirges passou os melhores bocados: "Claro", produção de 75, ainda inédita no Brasil, foi feita em doze dias.
"E não fui só assistente de direção, mas ator também. "Claro", na verdade, é o pai de "Idade na Terra". Glauber continua com aquela sua oralidade de António Conselheiro, é algo muito bonito."
De volta ao Brasil pelas mãos de Neville de Almeida, Jirges terminou há pouco as filmagens de "Rio Babilônia":
"Pra mim foi um choque o filme. Estava fora do Brasil há quatorze anos. E íamos a muitos lugares diariamente, de uma boate da Zona Sul ao morro, da Zona Norte a uma cobertura na Lagoa. E filmar com Neville foi ótimo. Ele era o diretor que Glauber mais respeitava na nova geração. É um filho viril do Cinema Novo."
in Folha de São Paulo
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