Morre em N. York o Cineasta Jirges Ristum - MIGUEL DE ALMEIDA

— Rapaz, você não acredita: caiu o bigode. Tô ridículo.
Era Jirges Ristum, o bom "Turco", dias antes do Natal, com seu inabalável humor. Em Nova York, onde estava há mais de três meses, para tratamento de leucemia, recebia os telefonemas dos amigos (e muitos amigos) e a tudo rebatia com impecável classe e ironia. De todos, era o mais confiante e a todo instante avisava que chegaria em breve. Chega, mas não como queríamos: na madrugada de quarta-feira, aos 41 anos o cineasta e poeta Jirges Ristum morreu, após um derrame cerebral.
A história humana, e aqui entra a social e cultural, deve ser escrita com nomes que por razões várias são atropelados pela morte antes de erguer algo capaz de torná-los definitivos. Não se tratam de meteoros, mas de estrelas belas que não tiveram de tempo de fixar para as massas seu brilho indiscutível. Assim era Jirges Ristum, autor de um livro de poemas, "Guardanapos" e assistente de direção de Antonioni ("Mistério de Oberwald"), Bertolucci ("La Luna"), Rosselini ("Ano Hum"), Glauber Rocha ("Claro") e Neville de Almeida ("Rio Babilônia"). Preparava-se para seu primeiro longa-metragem, mas foi tolhido com o diagnóstico da doença e por quase nove meses tentou resistir, deixando uma última esperança em Nova York.
Ok, tudo parece apenas elogio simples, de amigo para amigo, mas em matéria anterior, registrava frase de Glauber Rocha: "Jirges Ristum é o maior cineasta brasileiro não revelado". E, hoje, do outro lado do Atlântico, em algum apartamento de Roma, também certamente acabrunhado, Bernado Bertolucci diria algo semelhante de seu assistente de direção, um sujeito que segurou a barra difícil das filmagens de "La Luna". Ou mesmo Michelângelo Antonioni, diria da parceria em "Mistério de Oberwald", quando tudo inicialmente fora filmado em vídeo — numa ousada proposta de Ristum.


Trabalho competente

Obstinado aventureiro, Jirges Ristum, nascido em Ribeirão Preto, teve rápida passagem pelo jornalismo (trabalhou inclusive na Folha), e desembarcou em Roma, no final de 68, atrás de uma tese sobre Antonio Gramsci. Logo fixou seu amor pelo cinema e, na RAI, fez seu primeiro documentário, "Passaporte Diplomático" — responsável por sua estada européia quase perto de onze anos: Ristum registrou a chegada de exilados brasileiros a Argel, a turma que sequestrara o embaixador alemão. Foi muito competente no trabalho e a enorme repercussão do documentário na televisão, criou atritos com as autoridades brasileiras. Teve de permanecer vários anos sem passaporte. Nem por isso se angustiou à semelhança de outros exilados: ali, em Roma ou Londres, onde trabalhou na BBC como redator, na impossibilidade de realizar todos os seus projetos, optou por ser personagem — desses capazes de alimentar vários livros com suas histórias e pela sua simples presença.

— Como sou pós-freudiano e pós-marxista e antiplatônico e antiaristotélico, procuro imaginar as histórias sem censura — dizia Jirges Ristum, em julho de 82, recém-chegado de Roma. E, por certo, sem censura, também vivia as suas histórias, criando bela biografia. De amigo.

Voltou ao Brasil, no início de 82, trazido pelas mãos de Neville de Almeida, para as filmagens de "Rio Babilônia . Tantos anos longe daqui, ficou alucinado com os fragmentos urbanos que ia recolhendo durante a realização da fita. Até se sentia assustado de presenciar cortes rápidos, e doídos, como a ida a um morro carioca e depois entrar numa boate de muito dinheiro. Sabemos, e ele viveu isso na carne, o golpe militar só fez realçar as diferenças sociais no Brasil.

Poeta, seu único livro de poemas nasceu do limite. Do limite amoroso. Ingrata musa deixava-o horas aguardando-a em mesas de bar. Na dureza da espera, escrevia poemas de amor nos guardanapos. Nada mais síntese de sua personalidade: o registro do fragmento, que agora poderia ser doloroso e, no momento seguinte, eterno êxtase.

Por tudo, um beijo.


in Ilustrada - Folha de S. Paulo - Sexta-feira, 20 de janeiro de 1984

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