Trabalho competente
Obstinado aventureiro, Jirges Ristum, nascido em Ribeirão Preto, teve rápida passagem pelo jornalismo (trabalhou inclusive na Folha), e desembarcou em Roma, no final de 68, atrás de uma tese sobre Antonio Gramsci. Logo fixou seu amor pelo cinema e, na RAI, fez seu primeiro documentário, "Passaporte Diplomático" — responsável por sua estada européia quase perto de onze anos: Ristum registrou a chegada de exilados brasileiros a Argel, a turma que sequestrara o embaixador alemão. Foi muito competente no trabalho e a enorme repercussão do documentário na televisão, criou atritos com as autoridades brasileiras. Teve de permanecer vários anos sem passaporte. Nem por isso se angustiou à semelhança de outros exilados: ali, em Roma ou Londres, onde trabalhou na BBC como redator, na impossibilidade de realizar todos os seus projetos, optou por ser personagem — desses capazes de alimentar vários livros com suas histórias e pela sua simples presença.
— Como sou pós-freudiano e pós-marxista e antiplatônico e antiaristotélico, procuro imaginar as histórias sem censura — dizia Jirges Ristum, em julho de 82, recém-chegado de Roma. E, por certo, sem censura, também vivia as suas histórias, criando bela biografia. De amigo.
Voltou ao Brasil, no início de 82, trazido pelas mãos de Neville de Almeida, para as filmagens de "Rio Babilônia . Tantos anos longe daqui, ficou alucinado com os fragmentos urbanos que ia recolhendo durante a realização da fita. Até se sentia assustado de presenciar cortes rápidos, e doídos, como a ida a um morro carioca e depois entrar numa boate de muito dinheiro. Sabemos, e ele viveu isso na carne, o golpe militar só fez realçar as diferenças sociais no Brasil.
Poeta, seu único livro de poemas nasceu do limite. Do limite amoroso. Ingrata musa deixava-o horas aguardando-a em mesas de bar. Na dureza da espera, escrevia poemas de amor nos guardanapos. Nada mais síntese de sua personalidade: o registro do fragmento, que agora poderia ser doloroso e, no momento seguinte, eterno êxtase.
Por tudo, um beijo.
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