As Vidas Cortadas - Cláudio Abramo

Só se percebe que se vive em alguns momentos da vida. Entre esses está o momento em que um amigo, mais jovem, morre, mesmo que sua morte fosse temida ou pressentida. Nestes quatro anos que passei entre estrangeiros, e estrangeiros europeus, personagens irrisórios e cínicos de uma tragédia universal, perdi, no Brasil, e aqui, vários amigos, antigos ou recentes, na maioria mais jovens do que eu: viver além daquilo que se pensava ser possível, viver quando se tinha 25 anos, ou 35, ou 40 anos é sempre pesado.

Nesses quatro anos morreu Luisinho Travassos, que para mim era quase um filho: jovem líder estudantil em 68, apareceu um dia em minha casa, com aquele seu ar perplexo e sofrido, magro, pálido.

Ele era caçado como inimigo público, embora não houvesse prisão preventiva decretada (depois fizeram até isso). A estupidez de nossos sucessivos ministros da Educação os transformou em alvo da fúria policial. Naquela época ainda não se torturava com choque elétrico, ou se torturava e depois se suspendeu isso, por interferência do general Geisel, me dizem, mas não sei bem. Luisinho Travassos era, às vésperas do Congresso da UNE, um jovem perseguido. Preso, em Ibiúna, mantido preso, trocado pelo embaixador Elbrick, viveu a juventude no exílio. Voltou para o Brasil para morrer numa quarta-feira de cinzas, num desastre de automóvel no Rio, um desastre irrisório, sabendo que estava morrendo. Não consegui escrever uma linha, então, apesar dá insistência de amigos e familiares que sabiam quanto eu o estimava.

Morreram vários outros, entre Luisinho Travassos e Teotônio Villela, que não era propriamente meu amigo, mas por quem eu tinha um grande respeito e uma forte admiração. Morreu Manuel Scorza, estupidamente, num desastre de aviação em Madri, morreu tanta gente. E agora, esta madrugada, minha filha me telefona para me anunciar morte de Jirges Ristum, um dos moços mais inteligentes de sua geração, que tinha dentro de si a percepção do que é política e do que é a realidade. Eu o conheci na redação desta Folha, há muitos anos, quando o jornal não tinha tantas estrelas, como tem hoje, pois não havia como pagar tantas estrelas então, mas tinha alguns excelentes profissionais que conheciam seu trabalho. Jirges me foi assinalado por dois amigos, A.M. Pimenta Neves, hoje correspondente do "Estado" (dirigiu "Visão", que transformou numa revista importante, embora outros levem a fama, trabalhou comigo neste jornal, dirigiu a "Folha da Tarde" durante um brevíssimo mas brilhante período, teve um alto cargo na Abril, foi correspondente desta Folha e depois da "Gazeta Mercantil" nos EUA), e Roberto Muller (várias vezes na Folha, depois diretor da "Expansão", que não sei se existe ainda, e há anos na direção da "Gazeta Mercantil"), assinalado portanto, por dois amigos, cujo julgamento levo em conta. Depressa Jirges começou a fazer matérias políticas, o que não era fácil no período de quase-negro total que começa a obscurecer todo o Brasil, como um manto soturno e sombrio. Casou, um belo dia, com uma moça de Bauru, ou Araçatuba, ou Ribeirão Preto, não me lembro, e casou na minha casa. Partiram depois para a Polônia, mas ficou pouco tempo, foi para a Itália, onde começou a escrever uma tese sobre Antônio Gramsci. Era um jovem então, e brilhante. Na Itália não sei o que aconteceu. Recebia dele recados, mensagens, sinais de vida. Mas cada vez mais raros. A sua vida foi se misturando ao "fog" europeu, como um telefonema interurbano conseguido com uma pilha de baixa voltagem.

Com a anistia voltou para o Brasil: quase não o reconhecemos, Radhá e eu, mas ele já estava doente. Voltou para a Itália, após uma breve passagem entre o sol ilusório, a grande cidade habitada por bilionários e miseráveis e voltou para tentar retomar a vida que tentara, de cineasta, assistente de Antonioni. Guardou o carinho com os amigos, conservou o gesto terno e compassivo com os filhos e filhas dos amigos antigos, de antes: do exílio não desejado. Depois só soube dele por terceiras pessoas, recados de minhas filhas, fiapos de informações. Sabia que estava agora em Nova York, pois recebera recado de Roberto Muller, que tratara de tudo. Ruth Escobar me disse que lhe arranjara um emprego, quando ele já estava gravemente doente.
São vidas cortadas. Cortadas pelas opções existenciais, pela escolha pela doença, mas cortadas também por essa ditadura que nos impuseram, e que pretende prolongar-se, patrocinando a entrega do País a um colégio eleito sem que o povo soubesse que o elegia, e ao qual se entrega a responsabilidade, que não pode ter, de decidir por todos. Uma responsabilidade que não lhe demos, e que lhe deve ser retirada.

in Ilustrada - Folha de S. Paulo - Sexta-feira, 20 de janeiro de 1984

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