Um Doce Quente Vento de Verão

Um doce, quente vento de verão
no adeus a uma terra e outra terra,
a cada boca e a cada tristeza,
à lua insolente, às semanas
que enrolaram os dias e desapareceram,
adeus a esta e àquela voz pintada
de azul, e adeus
à cama e ao prado costumeiro,
ao lugar vesperal dos adeuses,
à serra casada com o mesmo crepusculo,
ao caminho que fizeram os meus pés.
Um doce, quente vento de verão:
eu me difundi, nâo tem duvida,
mudei minhas existencias,
mudei de pele, de modos, de odios,
tive de fazer assim
nâo por lei nem capricho,
mas por uma corrente
que me acorrentou a cada novo caminho,
e eu tomei gosto pela terra, por toda a terra.
Um doce, quente vento de verâo
e eu logo disse adeus, recém-chegado,
com a ternura ainda recém-partida
como se o pâo se abrisse e de repente
todo o mundo pudesse comer.
Assim, eu fui de todos os idiomas,
repeti os adeuses como uma velha porta,
mudei de cinema, de razão, de tumulo,
fui de todas as partes a uma outra parte,
continuei sendo e prosseguindo
meio desmantelado na alegria,
nupcial na tristeza,
sem saber nunca como nem quando
pronto para voltar, mas nâo se volta.

Sabe-se que o que volta nâo se foi,
e assim a vida andando e desandando
mudando-me de traje e de planeta,
acostumando-me à companhia,
à grande amargura do desterro,
à grande solidão dos campanarios,
à desesperada saudade deste doce,
quente vento de verâo.



Rom, estate,74

Nenhum comentário: